A vitória nas urnas é incontestável. O papel, nem tanto.
Mailza Assis venceu, e venceu bem. Não há ironia nisso. São 272.635 votos, ou 66,21% dos votos válidos. O feito lhe garante um lugar na história: ela é a primeira mulher eleita governadora do Acre.
No discurso da vitória, a governadora eleita reservou um trecho para dar o troco em quem, por anos, a chamou de governadora e senadora “sem voto”. A indireta tinha endereço certo, e o endereço é este espaço:
“Não sou mais a governadora que não tem voto, não sou mais a governadora que não representa com votos do nosso Estado.”
Recado recebido. E reconhecido: agora ela tem voto. O problema é outro. Mailza tem voto no bolso, mas carrega um diploma voando. E esse papel pode pesar mais do que a montanha de votos que ela acaba de receber.
De dona de casa a pedagoga: a linha do tempo que ninguém explicou
Para entender o tamanho da encrenca, é preciso voltar no tempo. Os registros de candidatura contam uma história própria.
2014: então primeira-dama de Senador Guiomard, Mailza vira suplente de Gladson Cameli na disputa pelo Senado, por indicação do senador Sérgio Petecão. No registro, a ocupação declarada é dona de casa, e a escolaridade, ensino médio.
2019: com Gladson eleito governador, ela assume a cadeira no Senado da República.
2022: sem cacife eleitoral para disputar o Senado, cede o espaço a Alan Rick e concorre a vice-governadora na chapa de Gladson Cameli. No registro, já como senadora, volta a declarar ensino médio. Para comprovar a escolaridade, apresenta a Carteira Nacional de Habilitação, o que a lei permite.
2026: no registro da candidatura ao governo, surge um certificado de conclusão do curso de Pedagogia, emitido por uma instituição de Valparaíso de Goiás.
Note o detalhe: o certificado é datado de março de 2020. Ou seja, em 2022, quando Mailza declarou à Justiça Eleitoral que tinha apenas o ensino médio, o documento supostamente já existia. Por que não foi apresentado?
Quatro anos de faculdade em menos de um
A conta piora quando se olham as datas do próprio certificado. Pelo que consta no documento entregue ao TRE, a então senadora teria ingressado no curso em 2019 e concluído a graduação no segundo semestre do mesmo ano.
Um curso presencial de Pedagogia, com duração de quatro anos, concluído em menos de doze meses. Por uma senadora da República em pleno exercício do mandato em Brasília.
Quem foi o iluminado que achou boa ideia anexar esse papel ao registro? Ninguém pediu. A CNH já havia servido em 2022. O certificado entrou por vontade própria e agora cobra a conta.
A emenda que ficou pior que o soneto
Depois da denúncia feita aqui, os advogados de Alan Rick, adversário de Mailza na disputa, ingressaram com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE). O processo está em curso, e a instituição goiana tem até quinta-feira para enviar ao TRE-AC a comprovação de que a governadora eleita realmente cursou Pedagogia por lá.
Foi aí que a história ganhou contornos de comédia. O site da instituição, que estava fora do ar, voltou a funcionar. Lá aparece a confirmação do certificado e, de brinde, um histórico escolar de Mailza Assis. Na ânsia de dar ares de legalidade ao documento, produziu-se uma contradição ainda maior.
Três versões para uma mesma graduação
Coloque lado a lado o que os documentos dizem:
- Certificado entregue ao TRE: conclusão do curso no segundo semestre de 2019.
- Histórico escolar publicado no site: vestibular em 2021, ingresso em 2022, conclusão em junho de 2026 e colação de grau em julho de 2026.
- Data de emissão desse mesmo histórico: 10 de março de 2020.
Um histórico que descreve disciplinas cursadas entre 2022 e 2026, mas que foi emitido em 2020. Ou a instituição domina a viagem no tempo, ou alguém precisa explicar muito bem essas datas à Justiça Eleitoral.
Não se trata de detalhe burocrático. São documentos que se desmentem entre si e que foram usados num registro de candidatura ao cargo mais alto do Estado.
O que diz o TSE e o que está em jogo
Aqui mora o perigo para o Palácio Rio Branco. Em agosto deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral firmou entendimento de que o uso de diploma falso no registro de candidatura é motivo para cassação do registro e do mandato.
Cabe lembrar: o julgamento ainda não aconteceu, e a instituição tem prazo para se manifestar. Mas, se a Justiça concluir que o documento é inidôneo, a consequência é direta: cai a governadora eleita, cai a vice, e o Acre volta às urnas para uma nova eleição.
Este portal já vinha acompanhando o caso. Em “O diploma que ninguém consegue achar”, mostramos por que o despacho do TRE, vendido por parte da imprensa como uma “blindagem”, na verdade complicava a situação de Mailza. Em “Diploma de Mailza Cameli: um certificado que ninguém pediu pode custar o mandato”, apontamos que o problema nunca foi o papel em si, mas o destino que deram a ele.
Quem pode ganhar
- Alan Rick e a oposição, autores da AIJE, que veem na Justiça Eleitoral a chance de reabrir uma disputa perdida nas urnas.
- Os adversários do grupo governista, que se preparam para a possibilidade de um novo pleito.
Quem pode perder
- Mailza Assis e sua vice, cujo mandato passa a depender de uma instituição de ensino em Goiás e de datas que não se encaixam.
- Os 272.635 eleitores que votaram na chapa e que podem ver seu voto anulado por um papel que sequer era necessário.
- O contribuinte acreano, que pagaria a conta de uma eleição suplementar.
Há uma ironia amarga nisso tudo. A governadora que passou anos ouvindo que não tinha voto finalmente conquistou um mandato próprio, com números expressivos. E pode perdê-lo não por falta de voto, mas por excesso de zelo de alguém que resolveu enfeitar o currículo.
Rir por último
Nas redes, apoiadores da governadora eleita repetem que “quem ri por último ri melhor”. Pode ser. Mas, até quinta-feira, quem precisa explicar alguma coisa não é a imprensa que fez as perguntas. É quem assinou, emitiu e protocolou os documentos.
Se o diploma é legítimo, por que ele não apareceu em 2022? E, se apareceu agora, por que cada documento conta uma data diferente?
A resposta está nas mãos da instituição de Valparaíso de Goiás e, depois dela, do TRE-AC. Resta saber se a Justiça Eleitoral do Acre vai tratar o caso com o rigor que a jurisprudência do TSE exige, ou se as datas impossíveis vão virar mais um daqueles mistérios que o poder costuma arquivar em silêncio. O eleitor acreano merece saber: o diploma existe ou está apenas voando?
