Para quem ainda acreditava no fôlego político de Gladson Cameli, o popular “Dancinha”, a última terça-feira funcionou como um choque de realidade definitivo. O roteiro parece saído de um drama policial: logo nas primeiras horas do dia, a Polícia Federal bateu à sua porta — e não foi para um café de cortesia. A visita terminou com a apreensão de seus reluzentes carros de luxo, um símbolo ostensivo do poder que agora escorrega por seus dedos.
Mas o pior golpe estava reservado para a tarde. Por unanimidade, os juízes do Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC) rejeitaram os embargos de declaração impetrados pela defesa do ex-governador. A corte manteve, sem qualquer hesitação, a decisão que o declarou inelegível. Diante dos fatos, cabe a pergunta: até quando o grupo político de Cameli tentará sustentar um projeto que já nasceu morto?
Desde o dia 6 de maio deste ano, a situação jurídica de Gladson é cristalina. Ele foi condenado pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) a expressivos 25 anos e nove meses de reclusão. Os crimes? Peculato, lavagem de dinheiro, fraude à licitação, corrupção e organização criminosa. Sob a ótica da Lei da Ficha Limpa, sua pretensão de disputar uma vaga no Senado Federal não passa de uma peça de ficção jurídica.
“Insistir em colocar o nome nas urnas sob o manto de recursos protelatórios não é estratégia política; é um escárnio com o eleitorado acreano e uma tentativa desesperada de barganhar sobrevida institucional.”
Mesmo diante do óbvio, Cameli tentou censurar este jornalista na Justiça Eleitoral, exigindo direito de resposta por termos classificado sua postulação como “fake”. O tapetão, contudo, não altera a matemática dos fatos. O caminho até o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é um corredor polonês onde as chances de reversão são estatisticamente nulas.
No pragmático jogo de xadrez do poder local, as peças já começam a se mover para isolar o ex-governador:
- Quem ganha: Os adversários diretos na disputa majoritária. Eles já preparam baterias de liminares para impedir que Gladson sequer apareça na urna eletrônica ou tenha acesso ao horário eleitoral gratuito, evitando que ele contamine o debate público.
- Quem perde: O eleitor do Acre, que vê o processo democrático ser sequestrado por uma narrativa de vitimização, e a própria estabilidade institucional do Estado.
- Quem observa de binóculo: A atual governadora Mailza Assis. Embora sua gestão tente se equilibrar na corda bamba da “continuidade” — chegando ao absurdo de renovar por mais 12 meses contratos sob investigação da PF —, o Palácio Rio Branco sabe que o espólio político de Gladson já está sendo partilhado.
Suponhamos, em um exercício de pura abstração, que o eleitorado acreano decida ignorar a ficha corrida do candidato e lhe garanta a maioria dos votos nas urnas. O que acontece a seguir? Nada.
Sem condições jurídicas para ser diplomado, Gladson não assumirá a cadeira. Pela legislação eleitoral de cargos majoritários, o segundo colocado não herda a vaga. O Tribunal Superior Eleitoral será obrigado a convocar uma nova eleição suplementar para o Senado. Ou seja: o contribuinte terá de pagar duas vezes pelo capricho personalista de um político condenado.
Até quando as instituições acreanas e os partidos aliados permitirão que o debate público seja pautado pela negação da realidade jurídica? O Acre não pode se dar ao luxo de virar as costas para a moralidade administrativa e fingir que uma condenação de quase 26 anos de prisão é apenas um detalhe de percurso. Afinal, a Justiça Eleitoral serve para garantir a legitimidade do voto ou para chancelar o teatro dos condenados?
