Por Redação
Rio Branco (AC) – Em um cenário político cada vez mais polarizado, a distorção de fatos históricos tem sido usada como ferramenta para desqualificar adversários. Recentemente, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mirou suas críticas nas ex-ministras e atuais figuras de destaque nacional, Simone Tebet e Marina Silva, após especulações de que ambas poderiam concorrer ao Senado pelo estado paulista.
Com uma fala considerada misógina e preconceituosa — impulsionada pelo fato de as duas liderarem as pesquisas de intenção de voto em São Paulo [00:17] —, Tarcísio afirmou publicamente que Tebet e Marina teriam recebido “cartões vermelhos” em seus estados de origem, Mato Grosso do Sul e Acre, respectivamente. No entanto, um resgate simples dos dados eleitorais mostra que a declaração do governador paulista não passa de uma inverdade.
Os fatos contra a narrativa
Dizer que Simone Tebet e Marina Silva foram rejeitadas pelas urnas em seus redutos eleitorais é ignorar as decisões estratégicas de suas carreiras. Nenhuma das duas foi derrotada em tentativas de reeleição ao Senado, simplesmente porque optaram por caminhos diferentes.
Em 2022, Simone Tebet decidiu não tentar a renovação de seu mandato como senadora pelo Mato Grosso do Sul para se lançar à Presidência da República pelo MDB. Terminou o pleito em uma expressiva terceira colocação, conquistando quase 5 milhões de votos dos brasileiros.
O caso de Marina Silva é ainda mais emblemático. A atual ministra do Meio Ambiente não disputa o Senado pelo Acre desde que encerrou seu mandato. Em 2010, em vez de buscar a reeleição local, Marina concorreu à Presidência e obteve quase 20 milhões de votos. Em 2014, assumindo a candidatura do PSB após a trágica morte de Eduardo Campos, angariou mais de 22 milhões de votos, 21,32% do eleitorado nacional.
Os números provam que Marina Silva há muito tempo deixou de ser uma liderança restrita às fronteiras do Acre; ela se consolidou como uma figura política de projeção nacional e internacional, respeitada globalmente por sua agenda socioambiental.
A “Síndrome de Vira-Lata” e o Cenário Político do Acre
Apesar da inconsistência histórica da fala de Tarcísio, o ataque foi comemorado por setores da ala bolsonarista no Acre. Críticos locais acusam Marina Silva de supostamente “atrapalhar” o desenvolvimento do estado, associando a ideia de progresso exclusivamente à derrubada da floresta para a criação de pastos e gado.
Essa visão ignora que a verdadeira riqueza e relevância geopolítica do Acre residem, justamente, na preservação de sua floresta em pé. Sem ela, o estado perde sua principal força e identidade no cenário global.
Enquanto desvaloriza uma de suas personalidades históricas mais importantes, o eleitorado acriano tem aberto espaço para figuras políticas externas e “aventureiros” que pouco conhecem a realidade local. Um paradoxo sintomático, considerando que o próprio Tarcísio de Freitas se elegeu governador de São Paulo após transferir seu domicílio eleitoral às pressas, protagonizando episódios em que sequer lembrava seu local de votação.
Ao tentar aplicar um “cartão vermelho” imaginário a duas das mulheres mais influentes da política brasileira contemporânea, Tarcísio apenas evidencia o desconforto do campo conservador paulista diante da força eleitoral de Marina Silva e Simone Tebet. No tribunal dos fatos, o cartão vermelho volta-se contra a própria desinformação.
