Quem assistiu ao último debate político no Acre testemunhou mais do que um confronto de propostas; presenciou um verdadeiro teste de sanidade discursiva. Por trás dos sorrisos ensaiados e da maquiagem carregada da propaganda oficial, o que se viu no palco foi o colapso retórico da governadora Mailza Assis. Ao tentar se equilibrar na corda bamba entre a herança maldita de seu grupo político e a pose de gestora experiente, Mailza acabou protagonizando um curto-circuito cognitivo em rede estadual.
O tema era a previdência estadual — um poço sem fundo de problemas que arrasta as contas públicas do Acre há anos. Encurralada pela complexidade do tema, a governadora sacou do bolso a sua melhor desculpa de iniciante:
“Eu assumi o governo há cinco meses, portanto, não é responsabilidade minha apresentar uma proposta que solucione tudo isso, que são problemas de anos e anos.”
Até aí, uma tática velha e manjada: culpar o passado para blindar o presente. O problema é que a pressa em se esquivar da culpa atropelou a própria lógica. Menos de dez segundos depois, na mesma resposta, a governadora tentou vestir o figurino da experiência administrativa e disparou:
“Não sou o primeiro estado [sic] porque estou governando há quase quatro anos nesta gestão. E estão os problemas e não vamos nos esquivar.”
Afinal, governadora, são cinco meses de isenção de culpa ou quatro anos de caneta na mão? Essa incapacidade de ligar lé com cré não é apenas um deslize de oratória; é o sintoma de um governo que sofre de amnésia de conveniência.
Para quem acompanha os bastidores do Palácio Rio Branco, a contradição de Mailza Assis tem método. Ela foi vice-governadora de Gladson Cameli — recentemente declarado inelegível pelo TRE-AC. Mailza participou ativamente da engrenagem que governou o estado nos últimos anos. No entanto, diante do naufrágio político do antigo aliado, ela tenta a todo custo se vender como uma novidade intocada, livre das digitais dos escândalos que cercam o governo.
Não dá para querer os louros de “quatro anos de gestão” na hora de exigir o voto e, ao mesmo tempo, pedir a indulgência dos “apenas cinco meses” quando o funcionalismo público cobra a conta da previdência. Esse malabarismo político subestima a inteligência do eleitor acreano.
Essa desconexão com a realidade pública parece transbordar para a conduta pessoal de sua gestão. Recentemente, o Portal do Rosas revelou que o partido Republicanos acusou formalmente a governadora de desviar uma servidora comissionada do Estado para atuar como motorista particular de seus filhos.
O modus operandi se repete: o dinheiro é público, a estrutura é do Estado, mas o uso é estritamente pessoal. Seja na folha de pagamento do funcionalismo, seja no palanque de debates, o interesse público sempre fica em segundo plano no atual arranjo governamental.
- Quem ganha: A corte de assessores comissionados e o marketing político milionário, pagos pelo contribuinte para tentar colar remendos em um discurso que se desintegra ao vivo na TV.
- Quem perde: O servidor público estadual, que assiste à sua aposentadoria ser tratada como um jogo de empurra-empurra por quem deveria governar, e o cidadão comum, que financia a máquina sem receber liderança ou transparência em troca.
Como se não bastassem as contradições matemáticas de seu tempo de governo, Mailza ainda carrega a misteriosa blindagem de sua formação. Auto-declarada pedagoga, a governadora até hoje não apresentou o diploma de conclusão de curso na UFAC, alimentando questionamentos constantes nos bastidores da oposição e da imprensa livre. Se nem a própria trajetória acadêmica é transparente, como exigir clareza na gestão das contas do Acre?
Governadora, o eleitorado acreano pode ser paciente, mas não sofre de amnésia. Se em dez segundos o seu discurso muda de marinheira de primeira viagem a capitã experiente, em quanto tempo a sua gestão pretende, de fato, começar a governar para o povo?
