A miséria da violência

A miséria da violência

Por Fabio Pontes

A incompetência característica do governo Gladson Cameli (PP) tem feito o Acre mergulhar em duas graves crises que aterrorizam a população: a pandemia da Covid-19 e a violência descontrolada que nos deixa ainda mais em pânico. Além de termos que lutar para sobreviver ao coronavírus, precisamos rezar para não sermos a próxima vítima de uma guerra urbana que deixa corpos banhados em sangue jogados pelas ruas das cidades. 


As duas crises estão muito associadas, e são agravadas por um governo cuja única política pública eficaz é pintar o Acre de azul, a cor de seu partido. Caracterizado pela completa bagunça institucional, falta de comando e da adoção de uma política de planejamento para garantir o bom funcionamento da máquina em prol da população, o governo Gladson Cameli aprofunda as crises sociais históricas do Acre. 

Em um estado pobre e carente como o nosso, não temos nenhum tipo de política pública para garantir um desenvolvimento econômico sustentável (e falo de sustentabilidade em seu conceito macro) que permita a geração de empregos e renda para a população, sobretudo para os jovens. O resultado está aí: nossa juventude executada em vias públicas e abarrotando nossos presídios já superlotados. 

Para piorar, espaços públicos como os Centros da Juventude nos bairros das cidades, que deveriam garantir atividades de lazer e desporto, estão às traças – bem como todos os nossos espaços culturais e históricos. 

Cameli foi eleito com a promessa de fazer do Acre uma potência do agronegócio; até hoje, todavia, não vimos uma horta de cheiro-verde fomentada por políticas de estado. Em quase três anos de (des) governo, já são três secretários do Agronegócio, o que mostra que, com Cameli, critérios técnicos são descartados para gerir a máquina, 

O que vale para ele mesmo é apenas seu propósito de reeleição, usando muito bem do toma lá dá cá. Vez por outra, cargos estratégicos de gerenciamento são trocados de um dia para o outro para abrigar novos aliados do governador de olho em 2022. A consequência óbvia é a descontinuidade da gestão da máquina – se é que há alguma em andamento. 

– Muito mais do que uma questão de força policial, a violência no Acre é um problema social, de nossa elevada desigualdade na distribuição de renda que mergulha milhares de acreanos e acreanas na miséria. Desde os governos do PT tenho apontado essa questão: de nada adianta colocar a tropa nas ruas, se nas periferias a miséria predomina, deixando jovens expostos a virarem “soldados” das facções do centro-sul que por aqui chegaram e encontraram terreno fértil – muito mais fértil que o agronegócio na sua versão arcaica de Gladson Cameli. –  


Nas eleições de 2018, o então candidato ao governo disse que, em seis meses, resolveria o problema da violência no Acre. Para isso foi até buscar um especialista para ser seu vice e comandar a Segurança Pública: o então deputado federal Major Rocha, policial militar. De lá para cá as coisas só pioraram, e Cameli e Rocha são inimigos políticos.

Se pegarmos a lista dos primeiros nomes indicados para compor as secretarias de governo no início de 2019, veremos que mais da metade já foi trocada; mais um claro sinal de que critérios técnicos e de planejamento não são características de Cameli.

O resultado está aí: o caos. Gladson Cameli concorreu ao Palácio Rio Branco achando que, enquanto estivesse na cadeira de governador, levaria o mesmo estilo bon-vivant de seus tempos de Senado e Câmara, onde era acostumado a terceirizar responsabilidades, deixando tudo para os assessores fazerem, levando apenas os louros nas páginas dos jornais.

No Poder Executivo o buraco é mais embaixo. Ou se tem o comando e controle da máquina, ou ela vai para a bancarrota. Não por acaso, diante do vácuo de poder, começaram a surgir várias suspeitas de corrupção nas secretarias que Cameli entregou (literalmente) para os aliados partidários. Denúncias estas feitas pelo próprio vice-governador.

Diante de todo este cenário de balbúrdia sui generis do governo Cameli, não nos resta nada a não ser nos protegermos trancados em nossas casas de muros altos, cercas elétricas e câmeras. Pelas ruas, a criminalidade se fortalece diante de um governo incompetente, incapaz de colocar em prática políticas públicas de inclusão social, combate às desigualdades, geração de emprego e renda.

Já que não temos a mesma sorte de Gladson Cameli de contar com um batalhão inteiro de policiais para garantir a sua segurança, só nos resta mesmo usarmos as medidas de isolamento para sobrevivermos à pandemia, para que também possamos sobreviver ao caos da violência tão acreana.

Que dias melhores possam vir…

Veja mais no Blog do Fábio Pontes

Leonildo Rosas

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