A campanha acabou no primeiro turno sem a vitória desejada. E, nos corredores do Palácio Rio Branco, a conta já tem endereço certo: milhares de servidores comissionados e trabalhadores terceirizados. Segundo apuração do Portal do Rosas, passada a eleição, o governo do Acre fará uma limpeza em sua estrutura para tentar fechar a folha de pagamento.
A ordem que circula nas secretarias é simples e brutal: parem tudo.
“A gente vai limpar o tacho para tentar pagar a folha de pagamento.”
É assim que a orientação foi traduzida nos bastidores. O problema, como você verá adiante, é que o tacho já chegou raspado.
O Estado quebrado que o discurso oficial não admite
Não é de hoje que este portal afirma: o Estado do Acre está quebrado. Não há orçamento nas secretarias, os pagamentos estão atrasados e falta dinheiro circulando na praça. Fornecedores esperam. Empresários esperam. Até as prefeituras esperam.
Na reportagem “Tesouraço no Acre”, o Portal do Rosas já havia mostrado que o governo não tinha dinheiro nem para repassar o ICMS das prefeituras e que a conta da demissão em massa estava sendo preparada para depois do segundo turno. Agora, o roteiro ganha data e formato.
E para onde foi o dinheiro? A avaliação desta coluna é direta: boa parte dele serviu para tentar garantir que a governadora Mailza Assis vencesse a eleição no primeiro turno. Não venceu.
A reunião da tesoura: secretários levam a lista
O desenho da operação já está definido. Encerrada a eleição, haverá uma reunião com o primeiro escalão do governo. Nela, cada secretário deverá apresentar:
- os nomes a serem exonerados em sua pasta, com prioridade para as nomeações mais recentes;
- a quantidade de postos de trabalho terceirizados dos quais terá de abrir mão.
Ou seja, quem entrou por último na máquina tende a sair primeiro. E o trabalhador terceirizado, que não tem padrinho nem estabilidade, entra na lista como número numa planilha de corte.
O TCE já tinha acendido o alerta
Não dá para dizer que ninguém avisou. Em setembro, o Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC), em decisão cautelar do conselheiro Ronald Polanco, proibiu novas nomeações no governo após detectar um excesso de R$ 7 milhões na folha de pagamento. A decisão atendeu a uma representação de senador e apontou violações à Lei de Responsabilidade Fiscal em ano eleitoral.
Traduzindo: a folha inchou justamente no período em que inchá-la rendia dividendos políticos. Agora que a urna fechou, chega a fatura.
O docinho no fundo da panela
A melhor imagem para explicar a situação vem da cozinha de qualquer casa. Quando a mãe faz um bolo, sobra aquele docinho grudado no fundo da panela. São muitos filhos querendo lamber. Quem chega primeiro limpa tudo.
No governo, é a mesma coisa. Os que chegaram antes já rasparam o tacho. O que sobrou para o restante é uma panela limpa e uma folha de pagamento para honrar.
A arrecadação cai. O que mantém o Estado de pé é o repasse do governo federal. E não há, no horizonte, perspectiva de melhora.
E a tal “operação recompra”?
Há outro ingrediente nesse caldo. Sem a vitória no primeiro turno, a governadora precisa montar o que nos bastidores se chama de “operação recompra” para disputar o segundo turno. O obstáculo é o mesmo que trava as secretarias: falta dinheiro para distribuir.
Eis a contradição exposta: um governo que manda cortar pessoal para pagar a folha é o mesmo que precisa de fôlego financeiro para sustentar a reta final da campanha. As duas contas não fecham ao mesmo tempo.
Quem ganha e quem perde
Quem perde
- Os comissionados nomeados recentemente, que serão os primeiros na fila da exoneração.
- Os trabalhadores terceirizados, o elo mais frágil da corrente, que perderão o emprego sem ter tido qualquer papel na decisão de gastar.
- Fornecedores, empresários e prefeituras, que já amargam atrasos e continuam sem previsão de pagamento.
- O cidadão, que verá serviços paralisados pela ordem de “parar tudo”.
Quem ganha
- Quem chegou primeiro ao tacho. Raspou a panela enquanto ainda havia o que raspar.
- O próprio governo, que ganha uma sobrevida contábil para pagar a folha às custas de quem tem menos poder de reação.
Bandeira na rua, nome na lista
Fica o recado a quem passou a campanha empunhando bandeira na esquina:
“Você pode balançar muita bandeira, mas você pode ser um daqueles que vai rodar.”
Exonerado, demitido, dispensado. O nome muda; a consequência é a mesma. Não é falta de aviso.
E, para que não reste dúvida, a explicação foi feita da forma mais didática possível, inspirada na própria governadora, que fez questão de lembrar publicamente: “eu sou pedagoga”. A lição está dada.
A pergunta que o Palácio precisa responder
Se o Estado está quebrado a ponto de não repassar o ICMS das prefeituras, por que a folha cresceu R$ 7 milhões além do limite justamente em ano eleitoral? Quem autorizou essas nomeações sabia que elas tinham prazo de validade, que coincidia com o calendário da urna?
E a pergunta que realmente importa: o governo vai divulgar a lista de cortes e os critérios usados, ou o servidor vai descobrir pelo Diário Oficial que a campanha acabou e ele também?
