No teatro de sombras que se tornou a gestão estadual no Acre, o Palácio Rio Branco parece seguir uma regra não escrita, mas rigorosamente aplicada: quanto mais complicada for a relação do indivíduo com a Justiça, mais perto do núcleo de poder ele chega. A última cartada da administração liderada pela vice-governadora Mailza Assis comprova que o ecossistema político local tem um fascínio inegável por figuras com passagens nebulosas nos tribunais.
A mais recente nomeação para comandar a Secretaria de Comunicação do Estado é um verdadeiro tapa na cara da moralidade administrativa. O escolhido da vez para gerir a pasta e os recursos públicos da propaganda oficial é André Paulino. O detalhe que o Palácio Rio Branco tentou varrer para debaixo do tapete? Paulino é um homem condenado em última instância pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Estamos falando de uma condenação a dois anos e seis meses de reclusão em regime aberto, originada de uma ação movida pelo cartório de Senador Guiomá por crime de calúnia. O processo transitou em julgado em 2024 e a pena sequer foi cumprida, tornando-o juridicamente inelegível. Ainda assim, para a cúpula do governo, a ficha corrida e a falta de qualquer bagagem técnica ou profissional expressiva na área de comunicação parecem ser meros detalhes irrelevantes diante da lealdade partidária.
“O conhecimento técnico da nova gestão não vem das redações ou da academia; vem dos tribunais, dos bancos dos réus e do trânsito em julgado.”
A escolha de André Paulino não surge do acaso. O novo secretário acompanha o grupo político há anos, tendo atuado de perto com a atual gestão ainda nos tempos de Senado, produzindo conteúdo digital. No entanto, o padrão de comportamento institucional no Acre já nos acostumou com o pior. Afinal, a própria governadora em exercício convive de perto com controvérsias judiciais graves — como o processo que envolve seu cônjuge, Gladson Cameli, em denúncias de agressão contra a ex-esposa, uma lide que se arrasta misteriosamente nos escaninhos da Justiça local em meio a sussurros de bastidores sobre dezenas de milhões de motivos para a lentidão processual.
Quando o topo do Executivo estadual coleciona pendências e investigações — a exemplo dos desdobramentos da Operação Ponto Falso e dos reveses jurídicos enfrentados por Gladson nas cortes superiores —, nomear condenados para cargos de alto escalão deixa de ser um erro administrativo e passa a ser uma política de Estado.
- Quem ganha: O núcleo duro do Palácio Rio Branco e os operadores de bastidor, que garantem mais um peão de absoluta confiança e controle político nos postos-chave, blindando a narrativa oficial a qualquer custo.
- Quem perde: O erário, a transparência pública e a sociedade acreana, que assistem estupefactas ao desrespeito escancarado às leis de inelegibilidade e aos princípios básicos da probidade administrativa.
Até quando o contribuinte acreano continuará financiando uma máquina pública que trata a condenação criminal não como um obstáculo moral, mas como um pré-requisito de confiança para sentar à mesa com os poderosos? A resposta, infelizmente, parece estar trancada em algum cartório — ou protegida pelo silêncio complacente de quem deveria fiscalizar.
