O Milagre da Onipresença de Mailza: O Diploma sob Suspeita e o Jogo de Cartas Marcadas para o TCE

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O relógio político do Palácio Rio Branco passou a correr em ritmo de contagem regressiva. A vice-governadora do Acre, Mailza Assis, enfrenta agora o pior pesadelo de qualquer operador do poder: a obrigação de apresentar provas materiais contra a própria desintegração política. O corregedor da Justiça Eleitoral, desembargador Samuel Evangelista, deu um ultimato de cinco dias para que ela apresente o diploma original de pedagogia. O documento, que deveria ser o passaporte para sua consolidação institucional, tornou-se o epicentro de um escândalo de falsidade ideológica que ameaça ruir sua chapa.

No Acre, estamos acostumados com malabarismos políticos que desafiam a lógica. No entanto, o caso do diploma de Mailza ultrapassa as fronteiras da articulação e entra no terreno da física elementar. Como uma cidadã consegue frequentar um curso estritamente presencial no interior de Goiás enquanto cumpre agendas oficiais, vive como primeira-dama no interior do Acre e, posteriormente, assume uma cadeira no Senado Federal a milhares de quilômetros de distância?

O papel aceita tudo, mas a realidade dos fatos é implacável. No papel apresentado à Justiça Eleitoral, Mailza afirma ter concluído o curso de Licenciatura em Pedagogia em fevereiro de 2019, com colação de grau realizada em 6 de março de 2020. A instituição emissora? O Instituto de Ciências Sociais e Humanas (ICSH/CESB), localizado em Valparaíso de Goiás — a exatos 37 quilômetros de Brasília e a mais de 2.000 quilômetros de Rio Branco.

O detalhe que desmonta a farsa é simples: a referida instituição só oferecia esse curso de forma 100% presencial. Entre 2016 e 2017, período em que deveria estar sentada nas fileiras acadêmicas em Goiás, registros resgatados de redes sociais mostram Mailza vivendo sua rotina como esposa do então prefeito de Senador Guiomard, James Gomes. Ela não era uma estudante anônima em Goiás; era uma figura pública ativa no interior do Acre.

“Se o curso era presencial e ela morava a milhares de quilômetros de distância, onde estão as fotos de sala de aula? Onde está o registro de frequência? A verdade é que não existem, porque a física ainda não permite a telepatia acadêmica.”

Para piorar o cenário da defesa, quando tomou posse no Senado Federal em janeiro de 2019, a própria Mailza declarou oficialmente ao site do Senado que era “estudante do curso de Direito” em uma faculdade particular de Rio Branco (instituição que faliu e cujo antigo prédio hoje abriga o Detran). Em qual momento a suposta pedagoga encontrou tempo para se formar em Goiás?

Investigações prévias do Portal do Rosas revelam que o buraco é muito mais embaixo. O ICSH/CESB, que emitiu o certificado de Mailza, não é uma instituição qualquer. A faculdade já foi alvo de Inquéritos Civis Públicos conduzidos pelo Ministério Público Federal (MPF) no Maranhão e em Minas Gerais, sob a grave acusação de venda de diplomas pela bagatela de R$ 4.500,00.

Apresentar um documento de uma instituição sob suspeita sistêmica de fraude não é apenas um erro de assessoria; é um tiro no pé com calibre de destruição em massa. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é pacífico ao tratar a utilização consciente de documento falso no registro de candidatura como fraude grave, o que acarreta a imediata cassação do registro ou do diploma.

A pergunta que qualquer analista de bastidores deve fazer é: por que Mailza Assis precisava, com tanta urgência, de um diploma de nível superior, a ponto de se expor a tamanho risco jurídico? A resposta não está na vocação para o magistério. O alvo sempre foi muito mais lucrativo.

Nos bastidores do Palácio Rio Branco, o plano era pavimentar o caminho de Mailza para uma indicação ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-AC). A corte de contas, que garante cargo vitalício, estabilidade financeira e poder de blindagem política, exige como requisito constitucional indispensável a formação em nível superior. O diploma de pedagogia era a peça que faltava para fechar esse acordo de cavalheiros. O plano era perfeito, não fosse o detalhe de que, no jornalismo investigativo, as pegadas sempre ficam expostas.

  • Quem ganha: A oposição e, especificamente, a ala ligada ao Senador Alan Rick, que encabeça a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE). O enfraquecimento de Mailza abre espaço para a redistribuição de forças no grupo governista visando as próximas eleições.
  • Quem perde: O governador Gladson Cameli, que vê seu governo novamente associado a escândalos de idoneidade, e a própria Mailza, cuja imagem de “política humilde e de bastidor” é substituída pela suspeita de fraude documental para proveito pessoal.

Diante do ultimato da Justiça Eleitoral, a defesa de Mailza tem duas opções: apresentar um calhamaço inacreditável de provas de que ela possui o dom da bilocação, ou admitir que o certificado não passa de uma ilusão de papel. Se o diploma não aparecer em cinco dias, o castelo de cartas do Palácio Rio Branco começará a desmoronar. Resta saber se as instituições do Acre terão a coragem de aplicar a lei com o mesmo rigor que aplicam ao cidadão comum que falsifica um vale-transporte.