A política acreana raramente decepciona quando o assunto é o vale-tudo pelo poder, mas o que vimos recentemente no cenário eleitoral ultrapassou a linha da disputa partidária e entrou de cabeça no terreno do salve-se quem puder. Nos bastidores, o que se comenta é um só: o Titanic tucano/progressista bateu no iceberg da Justiça Eleitoral, e os ratos já começaram a abandonar o convés.
Enquanto a Justiça Eleitoral carimba a previsível inelegibilidade do ex-governador Gladson Cameli — rebatizado pela crônica política mais ácida como o patrono da corrupção local —, o circo dos debates televisivos segue garantindo o entretenimento de quem não tem o que fazer. Tivemos o festival de lugares-comuns de sempre: promessas requentadas de produção e emprego que não resistem a cinco minutos de auditoria nas contas públicas.
Mas o verdadeiro espetáculo grotesco não veio das velhas raposas. Veio da atual inquilina do Palácio Rio Branco.
“Como não? Se há poucos dias ela dizia que era o governo da continuidade, que Gladson Cameli era seu grande aliado… Ninguém larga a mão de aliado. A senhora largou a mão do seu principal padrinho eleitoral.”
A governadora em exercício Mailza Assis conseguiu a proeza de protagonizar o momento mais surreal do debate. Munida de cadernos, anotações e uma performance que desafia o bom senso — com direito a questionamentos sobre a validade do seu próprio diploma de pedagoga —, a mandatária decidiu que era hora de amputar o próprio passado recente.
Diante da condenação de Cameli, Mailza simplesmente jogou a pá de cal sobre a aliança que a colocou onde está. O que antes era o “governo da continuidade” e a “parceria inquebrantável”, virou convenientes “não tenho participação nisso”. É o clássico salve-se quem puder institucional.
Neste tabuleiro enlameado, é preciso desenhar para entender para onde aponta a bússola dos interesses:
- Quem ganha: Os candidatos de oposição que conseguem expor o racha evidente na base governista. Nos bastidores, adversários já faturam os cortes de vídeo da governadora tentando explicar o inexplicável.
- Quem perde: O eleitor acreano, refém de um grupo político que governa à base de dissimulação. E, claro, o próprio Gladson, abandonado no altar da conveniência eleitoral por quem jurou fidelidade eterna até ontem.
- O azarão: Nomes como o do candidato Thor Dantas, que tenta trazer substância técnica e preparo para o debate, mas acaba soterrado pelo barulho da incompetência alheia e pela irrelevância das pesquisas tradicionais.
A tentativa desesperada de Mailza Assis de fingir que caiu de paraquedas na gestão do próprio aliado não vai colar nem com o eleitor mais desatento. A quem interessa manter essa farsa de que a continuidade existe apenas quando convém, mas a culpa é solitária quando o navio afunda?
Até quando o contribu Ganhador vai financiar esse teatro de quinta categoria onde a única certeza é a impunidade dos donos do poder? A conferir os próximos capítulos — e os próximos mandados da Justiça.

