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O povo está na rua, expressando sua indignação’, diz agente da PRF aposentado que deu dicas de bloqueios de rodovias a bolsonaristas

Em entrevista ao ‘Estadão’, Américo Paes nega intenção de estimular ‘enfrentamento’ da PRF e afirma ser contra fechamento total das rodovias

Por Rayssa Motta e Fausto Macedo

O policial rodoviário federal aposentado Américo Paes viralizou nas redes sociais nesta semana ao orientar os manifestantes que tomaram as estradas do País após a derrota do presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre os “procedimentos” para evitar multas e “intimidação” em abordagens da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Ao Estadão, ele afirma ser contra a obstrução total das rodovias. “O protesto eu acho legítimo, sem parar o Brasil”, defende.

Aposentado há cinco anos, Paes conta que trabalhou por mais de duas décadas na PRF e que ainda se sente “parte” da corporação. Ele afirma que gravou o vídeo para “orientar” os manifestantes e nega a intenção de estimular o “enfrentamento” dos policiais.

“Quando fiz o vídeo foi pensando em manter a manifestação sem atrapalhar a sociedade e o trabalho da PRF”, explica.

Questionado sobre o respaldo a manifestações contra o reconhecimento da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas urnas, ele afirma que o “povo está na rua expressando sua indignação”.

Vídeo

No vídeo, Paes orienta os manifestantes a evitarem se apresentar como lideranças aos policiais rodoviários. “Vim contribuir informando aos senhores os procedimentos sobre os fechamentos da BR. O policial rodoviário federal, ao chegar no local, vai procurar identificar a liderança para poder intimidar. Então não deem seu nome com liderança. Evitem aparecer nos vídeos dizendo: ‘Eu sou a liderança. Fui eu. Falem comigo’. Não. ‘É uma ação coletiva, não tem liderança, é a sociedade que está aqui fechando a BR’. Então não se identifiquem”, diz na gravação.

O policial rodoviário aposentado sugere ainda que os manifestantes evitem usar carros e caminhões para fechar as rodovias, o que facilita a aplicação de multas. A PRF informou mais cedo que as autuação já somam mais de R$ 18 milhões.

“Tirem os carros que têm placa, tirem caminhão, o que for possível tirar placa para fechamento de BR, porque o Estado vai conseguir identificar a quem pertence e vai ser feito multas (sic). Então fechem com pneus, com cadeiras, com resto de material de construção, com madeira, fechem com cavalete. Evitem colocar os veículos de vocês para que não sejam multados. Essa é a minha contribuição a título de informação, contribuindo para um País melhor”, acrescenta no vídeo (assista abaixo).

Leia a entrevista completa:

ESTADÃO: O Sr. cita no vídeo que foi policial rodoviário federal. Quando se aposentou e por quanto tempo trabalhou na PRF? 

Américo Paes: Aposentei em 2017. Trabalhei por 21 anos.

ESTADÃO: Chegou a atuar em ocorrências de rodovias interditadas e bloqueadas? Como é o trabalho?

Américo Paes: Muitas. Nós (PRF) temos a missão de desbloquear 100% da pista de rolamento e acostamentos. Não sendo possível, procuramos liberar o máximo que garanta o direito de ir e vim do cidadão.

ESTADÃO: Como o Sr. avalia a atuação da PRF até o momento para liberar as rodovias? As opiniões são divergentes: há quem veja abordagens muito benevolentes e quem acredite que algumas ações foram exageradas. Em sua avaliação, as abordagens, em sua maioria, parecem estar dentro dos protocolos?

Américo Paes: Entendo que estão seguindo o protocolo. Manifestações devem ser tratadas com muito cuidado. Em sua maioria, as manifestações não requerem uso de armas letais. Geralmente são trabalhadores e família. E não apresentam um grande risco de vida aos PRF. Mas muito cuidado pelos agentes. Para desbloquear a via, a PRF, ao chegar no local, negocia a abertura através do diálogo. O primeiro diálogo é feito sem pressão de usar o rigor da lei. É um simples pedido para desbloquear a via. Não sendo atendida, o diálogo avança para o uso do rigor da lei. E no último caso o uso da força… mas não sem antes passar pela autorização da chefia.

ESTADÃO: O que levou o Sr. a gravar esse vídeo? Para onde ele foi distribuído inicialmente antes de viralizar? Foi algum grupo de WhatsApp?

Américo Paes: Aqui no Acre, começaram a fechar as BRs em alguns pontos. Alguns conhecidos me ligaram para saber como fazer. Orientei como fazer dentro da lei. “Fechamento parcial”. Gravei o vídeo para informar o procedimento correto no caso de fechamento para as manifestações. Só esqueci de falar no vídeo que se tratava de fechamento parcial. O vídeo coloquei nos grupos daqui para orientar e não gerar enfrentamento com a PRF ou gerar transtornos a população. As redes sociais não perdoam, em cinco minutos, já recebi mensagens. Não tive como apagar o vídeo e gravar novamente colocando a palavra “parcialmente”.

ESTADÃO: O Sr. chegou a participar pessoalmente de algum bloqueio entre domingo e hoje, como manifestante?

Américo Paes: Sim, ontem estive na BR 364, para acompanhar uma manifestação que tinha intenção fechar a BR. Ao chegar no local, já havia uma equipe da PRF. Me dirigi a equipe e fizemos uma conversa. Sabíamos que os manifestantes iriam fechar a BR, avisei que iria conversar com eles para que fosse feito apenas em uma faixa da BR para manter o trânsito livre. Ou se eles decidirem fechar por total, que fosse a cada 15 minutos fechada e 15 minutos aberta. Onde a primeira proposta seria melhor para todos. Fui até os manifestantes e expliquei tudo, inclusive que fechar apenas uma pista seria a melhor opção. E tivemos sucesso.

ESTADÃO: O Sr. continua apoiando os protestos ou o pronunciamento do presidente o fez mudar de posição?

Américo Paes: O protesto eu acho legítimo, sem parar o Brasil. Protestar é um direito e uma forma de mostrar o contrário. Sou contra fechamento total ou parcial de qualquer via. Mas a legislação permite o parcial… então acato.

ESTADÃO: As dicas que o Sr. dá no vídeo demonstram expertise. A gente vê pelas próprias decisões judiciais que mandaram liberar as rodovias: elas citam justamente a identificação dos manifestantes. Além disso, as multas para quem usa os carros/caminhões para fechar as estradas também são maiores… O Sr. pensou nos seus colegas policiais ao dar essas dicas? Eles estão na linha de frente para desmobilizar os bloqueios…

Américo Paes: A legislação foi feita para todos, nossos colegas PRFs têm outros instrumentos para abrir todas as vias de trânsito no Brasil. A dica que passei foi apenas para a primeira intervenção da PRF o diálogo. Todo PRF é muito bem treinado para todos os tipos de ocorrências. Considero nossa instituição como a melhor instituição para se trabalhar dentro do nosso território nacional. Ao me aposentar fiz um texto no meu Facebook (Américo Paes de 03.05.18) onde faço tais referências. Quando fiz o vídeo foi pensando em manter a manifestação sem atrapalhar a sociedade e o trabalho da PRF… infelizmente esqueci de falar que o fechamento era parcial. E como já falei, as redes sociais não perdoam.

ESTADÃO: Começam a aparecer registros de desabastecimento em mercados e até hospitais, sem falar nas pessoas presas no trânsito. O próprio presidente criticou o cerceamento do direito de ir e vir. Como o Sr. avalia esse ponto? 

Américo Paes: Como disse, sempre fui e sou contra o fechamento total das vias de trânsito. E a PRF vai abrir todas, tenho certeza.

ESTADÃO: É a primeira vez na história do País que a gente vê protestos contra o resultado das eleições. O Sr. acha que faz sentido contestar o resultado escolhido pela maioria, ainda que seja uma maioria apertada?

Américo Paes: Não contesto o resultado das eleições, contesto o processo. A população está protestando sobre decisões judiciais, censura, mídia, fake news e outras ações que poderiam ter mudado o resultado da eleição. Visto ter sido tão apertado. Pra finalizar, o povo está na rua expressando sua indignação, apenas isso. O Brasil é grande. Sou pelo Brasil, pela PRF e a ordem.

ESTADÃO: Se arrepende de ter gravado o vídeo?

Américo Paes: Me arrependo de não ter verificado o vídeo e não ter notado a ausência da fala “parcial”. Fiquei triste em ter repercutido da forma que foi entregue. Gostaria de ter feito com a verdadeira intenção. Esclarecendo melhor sobre o que estava falando do fechamento da BR ser parcial. Para não gerar transtornos a sociedade e contribuir melhor com as manifestações e com o Estado. Algumas pessoas me corrigiram falando do vídeo, e eu esclareci… E isso eu não consigo fazer com o mesmo alcance que foi dado. Ainda falo minha BR quando por ela estou dirigindo. A PRF é uma grande instituição composta por grandes profissionais. Não só respeito a PRF como me sinto fazendo parte.

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