Ao meu amigo Marcos Afonso com saudade

3–5 minutos

“Estamos condenados a ser livres” Sartre

Por Francisco Afonso Nepomuceno*

Falar de quem você foi tão próximo é sempre muito complexo, sobretudo nos momentos de perda, as tentações hiperbólicas são quase inevitáveis mas a biografia do meu amigo Marcos Afonso é digna de eventuais exageros, dada sua vida ativa marcada por grande intensidade, sonhos e realizações.

Conheci o Marcos Afonso no Colégio Acreano, em 1975. Estudávamos a sétima série do ginásio, ele amante da literatura e eu da matemática.

Em plena ditadura militar, a política era um fenômeno proibido aos adultos e estranho aos adolescentes.

Duas séries de TV nos encantavam, a saber: “Viagem ao fundo do mar” e “ O homem de 6 milhões de dólares”.

À época, pasme, Marcos Afonso tinha como hobby ensaiar uns golpes de kung Fu (O gênero de filme que invadiu os cinemas de Rio Branco) e eu jogava futebol.

No segundo grau, apesar de estudarmos no mesmo colégio (CESEME atual CERB) eu fui estudar pela manhã e ele pela parte da tarde. Passamos a nos ver menos, mas nunca deixamos de nos falar.

Nos reencontramos na UFAC, no início da década de 1980. Ele no curso de Direito e eu cursando história.

No segundo grau, o Marcos Afonso iniciou sua militância clandestina no PC do B, sob a liderança do professor Pascoal Muniz e do ex padre e deputado estadual (PMDB) Manoel Pacífico.

Eu fui militar na tendência Caminhando, braço estudantil do PRC (Partido Revolucionário Comunista) por influência do Binho, da Marina e da Júlia Feitoza, que eram da minha turma de História.

Separados pela ideologia, mas conectados pela amizade.

Em 1983, Marcos Afonso como maior expressão pública da tendência Viração (Braço do PC do B no movimento estudantil) foi escolhido candidato a presidente do DCE da UFAC e Marina Silva foi indicada a candidata da Caminhando.

Marcos Afonso venceu a eleição e foi um grande líder estudantil. Corajoso, portador de uma retórica e verve inigualáveis.

Sua gestão ocorreu na fase crepuscular da Ditadura Militar em meio a muitas assembleias no Restaurante Universitário (RU), passeatas e disputa com a reitoria. A UFAC vivia uma atmosfera de muita politização.

Marcos Afonso teve uma vida partidária muito ativa e produtiva. Foi candidato a vereador em 1988, a deputado federal em 1990 e venceu sua primeira eleição em 1992 para vereador de Rio Branco.

Na ocasião, passou a integrar a bancada do então prefeito eleito, Jorge Viana, e logo em seguida substituiu o vereador Carlos Beirute, na condição de líder.

Eu trabalhava na assessoria política do Jorge Viana na Câmara e novamente passei a ficar muito próximo do Marcos.

Em 1994, por 14 votos, não se elegeu deputado federal. No final de 1995, Marcos se filiou no Partido dos Trabalhadores e em 1996 foi candidato a prefeito, na sucessão de Jorge Viana. Apesar de muito bem votado, ficou em segundo lugar.

Na sua última disputa eleitoral em 1998 foi o deputado federal mais votado do Acre e exerceu o seu mandato, meu amigo Marcos Afonso, com muita competência e dedicação.

Após o casamento com a minha amiga, Patrycia Coelho, inúmeras vezes fui visita-los e fazer conversas verdadeiramente palatáveis (a Patrycia é uma exímia Chef de cozinha).

Eram aulas de filosofia, política e gastronomia.

Trabalhamos juntos no governo do companheiro Tião Viana. O Marcos dirigiu a Biblioteca da Floresta, oportunidade em que ministrou inúmeros cursos de filosofia para a juventude sempre com entusiasmo e a competência habitual.

A partir de 2015, Marcos passou a ser assessor direto do governador Tião Viana. Em 2019, Marcos e Patrycia foram residir em Fortaleza e os nossos contatos foram sempre online.

A casa em que moro foi residência do Marcos Afonso por muito tempo. Era do seu ex sogro, de quem comprei. Logo na entrada tem um entrelaçamento natural de duas árvores, um jasmim plantado pelo Marcos e um Pinheiro plantado por mim. Essa nossa obra, segundo um engenheiro florestal a quem consultei, vai durar por mais tempo do que a dos plantadores.

Mas o Marcos Afonso será imortalizado por sua obra em vida. Gerações de acreanos lembrarão de um jovem portador de causas e utopias, que resistiu à ditadura, de formação humanista, que se entregou por onde passou à luta pelo bem comum.

No dizer de Hanna Arendt, filósofa alemã de quem o Marcos Afonso bebeu na vertente, “Por sua capacidade de feitos imortais, por poderem deixar atrás de si vestígios imorredouros, os homens, a despeito de sua imortalidade individual, atingem o seu próprio tipo de imortalidade e demonstram sua natureza divina”.


Como ele costumava dizer à guisa de conclusão “Hasta la victoria siempre”.

*Francisco Afonso Nepomuceno – Carioca. É professor de História na UFAC e dirigente do PT.