
Há pessoas que têm tanta sede de poder, de ficar perto do erário, que acabam se autoincriminando para tentar aferir vantagens para si ou para os seus.
Esse parece ser o caso do ex-prefeito de Cruzeiro do Sul, Vagner Sales (MDB).
Semana passada, Sales foi à uma emissora de rádio e televisão da segunda maior cidade do Acre afirmar, peremptoriamente, que o prefeito Ilderlei Cordeiro será cassado até março.
O curioso, porém, é que Cordeiro responde a processo na Justiça Eleitoral por suposto crime cometido por Vagner Sales, nas eleições de 2016.
Parece difícil entender a situação, mas não é.
Cordeiro foi candidato apoiado por Sales, que queria continuar controlando a máquina municipal, mesmo sem ter mandato.
Percebendo que seria usado como marionete, o atual prefeito se rebelou e rompeu com o seu principal cabo eleitoral e, segundo informações, está fazendo uma boa administração.
Mas, voltemos ao fato gerador do processo que pode interromper o mandato de Cordeiro.
Em agosto de 2018, Sales tentou cooptar candidatos que apoiavam a candidatura do professor Henrique Afonso, que concorria a prefeito pelo PSDB do hoje vice-governador Wherles Rocha.
Bem orientado, o candidato a vereador Clebisson Freire foi à reunião com o então prefeito Vagner Sales e alguns dos seus assessores munido de um gravador. Gravou mais de uma hora de conversa.
Na época, lhe foi oferecido R$ 5 mil e possiblidade de emprego na prefeitura.
Num dos trechos da gravação ficou clara a proposta feita por Sales.
“Não sei se posso nomeá-lo como secretário daqui, posso? Tu sai e a gente tem duas conversas, eu te daria nesse R$ 5 mil, que é para poder segurar esse… Aí tu conversa com o Ilderlei, a partir do dia 3 de outubro, para ele te chamar para trabalhar, eu já amarraria e tu já conversa com o Ilderlei, e eu posso te assegurar esse compromisso”, teria proposto Sales.
A denúncia chegou à Polícia Federal.
Pessoas foram presas. Ilderlei Cordeiro não participou da conversa, pois chegou após a tratativa.
O que causa estranheza é Vagner Sales, que foi o responsável direto pelo ilícito, antecipar julgamento de uma corte formada por juízes considerados isentos.
Atitudes como a do ex-prefeito podem levantar várias possibilidades, inclusive coloca em suspeição os magistrados que irão julgar um processo que definirá o destino de uma cidade tão importante como Cruzeiro do Sul.
Será que cassação neste momento seria boa para a população, que terá que eleger um novo prefeito tampão e em outubro participar de um novo pleito?
Juiz tem que ter bom senso e razoabilidade. É pouco crível que sigam os devaneios de quem faz da política pouco ortodoxa caminho para a construção de fortunas.

